Quem sou eu?

Outro dia, numa primeira aula de filosofia um professor chegou e perguntou para um aluno aleatório da classe:

– Quem é você?

E de imediato respondeu:

– Sou André. Tenho 19 anos.

– Não, este é o seu nome e a sua idade. Quem é você? E apontou para um aluno do lado.

– Sou estudante de biblioteconomia.

– Não, isso é o que você faz. Quem é você?

– Sou Luís, ser humano, filho de Dona Helena com Seu Arnaldo.

– Ah, ora. Você é humano. Mas não te perguntei isso. Perguntei quem é você. – Virou-se e questionou outro – Quem é você?

– Sou pisciano. – Respondeu outro.

– Ah, você respondeu quem é você me dizendo seu signo? Francamente.  E você? Quem é você? – apontou para outro, visivelmente nervoso – Vai me dizer que é o arcano Sol que você tirou na carta de tarot semana passada? Ou que realmente o planeta que estava posicionado na sua hora de nascimento fez você ser você. Então, quem me dera ter nascido um pouquinho depois, porque pelo visto seria leonino. Mais seguro,  mais radiante, mais bonito talvez, porque nunca vi alguém de leão feio. Ou então, quem me dera ter convivido com outras pessoas, já que um carinha aí disse que somos o resultado da soma de pessoas que transitam em nosso caminho. Há quem diga que somos amor. Ora, somos sentimentos agora? Afinal de contas, quem é você?

– Eu sou uma grandíssima filha da puta, professor.

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Quanto?

Entre a noite

Uma cama quente

Guarda-roupa que forma formas

Medonhas

Me pergunto

O quanto da Andreza realmente gostava de você?

Sem o problema de autoestima

Sem o medo

Sem o Édipo mal resolvido na infância

Sem carência

O quanto de você fica?

O quanto há de você em mim?

Entre umas notas que não sei o nome

Me pergunto: como faço pra destreinar meu pensamento?

Você vem quando me sinto só?

Triste?

Com fome?

Pão de forma integral vem você

Prédio cinza vem você

Amarelo era a minha cor

E agora é você

O pires é você

A música é você

Quando vai demorar pro meu inconsciente esquecer você?

O quanto é realmente você?
E aí eu lembro.
Que você é só você.
E tudo isso sou eu.
Porque se não tivesse eu, não teria o que tenho de você.
Que no caso sou eu.
E esse maravilhoso cérebro que é meu.
Sai, seu ridículo.

Nua

Gosto de ficar nua por um tempo e ver como sou de verdade. Sem adornos. Sem proteção. Admiro cada detalhe. Tato cada textura. Tal como faço com meu celular tirando a capinha de vez em quando para ver sua forma original.

Gosto de ambos desnudos.

Meu celular.

E meu corpo. 

A louca

No início do tratamento, tive o que eu apelidei depois de “três dias loucos”. Dias completamente insanos, que o Personare justificou como “Percepção Aguçada”, ou seja, o planeta mercúrio passou harmoniosamente em meu signo ascendente, que é algo bem especial já que ocorre a cada dois anos. O que me deixa feliz, já que em 2019 terei três prováveis dias de entendedora do universo novamente.

Bem, pensei de tudo. Praticamente entendi tudo. Ora pensava em biblioteconomia e linkava conceitos com a minha vida pessoal. Ora eu pensava na minha vida pessoal e criava mais um capítulo para minha monografia. Deus é testemunha de quantas empresas criei. De quantos artigos pensei.  Se tivesse feito o enem naqueles dias, com certeza hoje seria estudante de medicina. Mas serviu só pra eu ficar com bastante medo das coisas que entendi sem nem pensar muito. Era como se eu tivesse com o chapéu pensador do The Sims 2. Um tipo de hack no cérebro que me fez enxergar todos os planos do criador para a minha vida e todo plano da mídia e elite na vida dos brasileiros. E eu escrevi dois parágrafos enormes para vocês entenderem com clareza o quanto eu me senti louca.

Dentro dessas loucuras, cheguei num ponto muito crucial que era a forçação de barra que tenho comigo para ter um relacionamento que o mundo aí de fora chama de sério. Aí, comecei a ler uma autora muito maravilhosa chamada Laura Pires e me vi em muitos dos seus textos e abri a caixa de pandora que é o autoconhecimento.

Entendi o que, nós meninas, mulheres, garotas e etc somos sexualizadas o tempo inteiro. E que o nosso meio nos criou para ser de alguém. Ser de nós mesmas é algo ousado e então é melhor não, sabe? Desde os já muito debatidos filmes de princesas da Disney, comédias românticas, novelas com amores impossíveis que tornam-se real até mesmo em outro país. Glória Pires me poupe, é sério. Séries onde no último episódio todos casam e tem filhos. Livros que ajudaram mulheres a expandirem a mente para olhar para o cara do lado do ônibus e assim, fazer com qualquer cara que entre no ônibus seja o seu futuro marido, pai dos seus adoráveis três filhos, o responsável pela louça da janta e de pagar a conta do restaurante as terças.

Fui bombardeada com muita informação.

E usei vários parágrafos para bombardear vocês também.

Entenderam alguma coisa?

Não. Nem eu.

 

 

 

 

Células

– Não acredito em resiliência.

– Conversávamos sobre a estreia da sétima temporada de Game of Thrones, qual foi o caminho que você percorreu até chegar em resiliência?

– A galera fala que resiliência é a habilidade da matéria a voltar ao seu estado inicial, certo?

– Sim. E por que você acredita que algo pode voltar em seu estado inicial? E você ainda não me disse como…

– Se o material tiver memória, ele nunca voltará a ser o mesmo. Por exemplo, o corpo humano tem sei lá, um milhão de células. Uma delas resolveu se agitar e se transformar em duas. E um milésimo de segundo, eu já não sou mais a mesma. Se uma corda se agitou e fez ondas no ar e logo após voltou ao seu estado inicial, ela foi uma corda que se agitou mesmo assim. Ninguém vai apagar a memória da corda. Ela será uma corda que se agitou fazendo ondas no ar. Ela pode até voltar a sua posição inicial, mas jamais será a mesma. Ela desbloqueou mais uma história para contar para outras cordas na reunião de família. O natal daquela família de cordas nunca mais será o mesmo, ela vai chegar pra tia chata de cordas que pergunta “e aí, cadê os namoradinhos?” e vai responder com um “que namoradinhos o quê. Eu fiz ondinhas no ar, rapaz”. Desde que eu comecei a falar ininterruptamente sobre isso, já fui uma nova pessoa umas cinquenta vezes e jamais voltarei a ser a pessoa que eu era no início dessa conversa. E eu, acredito nunca mais serei a mesma que fui. Muito menos essa que sou agora. Isso me assusta da mesma maneira que me fascina.

– Mas vamos lá, volte do começo, como é que você chegou a esse assunto de resiliência?

– Ah, esse amontoado de um milhão e duzentos de células que sou agora não se lembra mais.

– Talvez o norte se lembra.

 

Distração até que ponto?

Desnorteada, sem rumo e à deriva.

Frustrada. Cheguei no ponto de ônibus e ele acabou de sair. Não adiantou correr. Ele saiu. Sem olhar pra trás. Sem pensar em mim. Sem pensar no Seu Geraldo que vinha logo mais. Refiz todo o meu trajeto mentalmente. Poderia ter enrolado menos para desligar o computador no trabalho, não ter feito o xixi antes de sair, muito menos bebido água, passado o cartão ao invés de digitar os 8 dígitos da minha chapa, não esperado o papelzinho sair, dá uma de joão sem papel, corrido para pegar o sinal aberto, não ter catado as moedas e comprado aquela bala.

Mas a bala tava deliciosa e enganou minha fome até chegar em casa, então deixa a bala. Mas poderia ter dado a nota e o troco viria mais rápido que catar moedas. Mas ficaria com mais moedas. Então deveria ter encontrado meu riocard mais rápido. Nota mental de colocar sempre no primeiro bolsinho.

Deveria ter encarado o chuvisco ao invés de pegar o guarda-chuva. Mas chegaria toda ensopada no ônibus e pegaria um resfriado com o ar-condicionado. Então deveria ter apertado mais os nós dos tênis da primeira vez. Assim não desatariam e evitaria parar 10 vezes e falharia menos na missão de segurar o guarda-chuva e a bolsa enquanto os amarrava novamente.

Mas olha só, veio outro ônibus atrás.

Ainda bem.

Até que valeu a pena comer a bala. Estava mesmo uma delícia. Comeria mais. Lembrar de andar com mais moedas para balas. Ih, caramba.

– ô motorista, vou descer neste ponto! PELA AMOR DO DIVINO, VOU DESCER NESTE PONTO.

Aqueles 5,99%

Aquele ser maravilhoso de plástico.

Aquele ser maravilhoso de plástico que te faz sentir nas nuvens.

Aquele ser maravilhoso de plástico que te faz sentir nas nuvens e rica.

Aquele ser maravilhoso de plástico que te faz sentir nas nuvens, rica e poderosa.

Chega de mansinho, às vezes você nem pede. Quando você vê já está usando. Mas você jura de pé junto que é só em casos de emergência. Não vou usar, não vou usar, não vou usar.

Mas o momento de solidão chega.

Você quer se sentir completa, realizada e justificar sua existência no mundo. Mas tudo tem limite. Você não tá nem aí. Você extrapola. Você quer chegar ao ponto máximo. Logo.

Você vira a deusa, a louca e a feiticeira. Moça, você é demais. Ele te diz o tempo inteiro “você pode”. Bem no pé do seu ouvido.

Mas aí.

A fatura chegou e eu sofri calada. O setor de cobranças não deixa tirar ele do pensamento. Eu dizer que estava endividada, recebi as propostas de parcelamento. Com letras douradas, num papel bonito, chorei de emoção quando acabei de ler “Prezada Sra. Andreza, se em 10 dias o pagamento não for realizado, estaremos colocando seu nome no SPC”.

Alegria de carnaval

Vestiu-se de purpurina, ajeitou a peruca colorida, alisou a saia de filó e sorriu para a vida. Estava fantasiada de alegria.

Pegou metrô lotado num sábado de manhã, uma caixa de isopor com gelo a derreter inundava tudo, batiam nos vidros e tetos cantarolando ‘se essa canoa não virar, eu chego lá’. Respirou fundo. Estava fantasiada de alegria.

O termômetro marcava 42ºC, sua pele discordava, rua lotada, cerveja 5 reais, ouvia ao fundo um ‘bang, bang, dei um tiro certo em você’. Respirou fundo. Estava fantasiada de alegria.

Todo mundo transpirando. Atenção, atenção, hora de verificar o dinheiro, o celular e o cartão de passagem. Opa, tudo no lugar. Mais pessoas transpirando. Por favor não encosta. Sério mesmo. Respirou aliviada. Estava fantasiada de alegria.

Prometeram começar as duas. Mas já são três. Alá, alá ô. O seu Pierrot se apaixonou pelo Arlequim. Pobre colombina. Foi chamada para madrinha. Respirou fundo. Estava fantasiada de alegria.

– Moço, 3 skol beats por 10? Riu da sua cara. Tá doida? Ele disse. 3 por 10 só no mercado.

Ligou o aplicativo, viu a opção do cardápio, tinha de todos os tipos, várias combinações, deu match. Esqueceu de verificar a distância. O frete ia ficar caro. Esquece. Respirou fundo. Estava fantasiada de alegria.

Finalmente encontrou os amigos e resolveu ser ela mesma. Aquela que é quando os 7,8% da skol beats deixa ser.Se divertiu como nunca. Abraçou desconhecidos. Jurou amizade eterna. Dançou em público. Opa, 21h. Correu. Seu bairro está com toque de recolher. Respirou fundo. Dane-se é carnaval.

Amanhã foi fantasiada de Cinderela. Muito mais fácil.

Cansaço

4h45 – toca o primeiro alarme

5h – o segundo

5h55 – levantou correndo, estava atrasada

6h15 – conseguiu sair de casa

6h16 – passam dois ônibus, mas não consegue pegar

6h30 – pega o ônibus

6h43 – sobe o primeiro lance de escadas do metrô

6h43 – o segundo

6h44 – o terceiro

6h45 – o quarto

6h45 – o quinto

6h46 – paga a passagem

6h47 – desce as escadas correndo e pensa no porquê de subir 5 lances de escadas para depois descer

6h49 – empurra todo mundo e entra no vagão

6h52 – o metrô começa a andar

6h58 – o joelho já dói

7h – estação coelho neto, ninguém se oferece para pegar a bolsa

7h01 – os ombros doem

7h02 – pega o livro para ler

7h32 – ih, a estação

7h33 – é esmagada na tentativa de sair do vagão

7h33 – sai do vagão

7h40 – pega o ônibus, em pé

7h41 – um moço se oferece para segurar a mochila

7h42 – o ônibus sai

7h43 – o ônibus freia bruscamente

7h44 – o ônibus acelera

7h45 – o ombro já deslocou

7h55 – desce

7h55 – corre para não se atrasar

7h58 – bateu o cartão

8h – tomou café correndo

8h05 – começou o batente já cansada pra caraca.

8h10 – matou 10 leões e ainda não são nem 9h.

Feedback

– Tchau! Adorei o passeio. Obrigada mais uma vez.

– Tchauzinho!

*ping*

Você recebeu um e-mail.

Olá, é o Augusto!

Isso é um e-mail automático para você responder uma pesquisa de satisfação sobre o nosso primeiro encontro. Sendo 1 não concordo e 5 concordo plenamente. Avalie os quesitos abaixo.

Sobre a apresentação: o referido pretendente é bonito. Nenhum astro de cinema. Mas tem um sorriso tão fofo o menino Augusto. Nota 3.

Sobre a conversa: o referido pretendente mostrou firmeza, clareza e conhecimentos do universo, a vida e tudo mais. Nota 4. Sabe conversar sobre cinema, música, astrologia e até sobre futilidades.

Sobre o beijo: o referido pretendente beija bem. Seu hálito estava refrescante, sua língua macia e malemolente. Nota 5. Concordo plenamente.

Tenho interesse de vê-lo novamente. Nota 1. Foi mal, Augusto. A gente poderia ter dado certo mas você quer o impeachment da presidente. E acha que o Bolsonaro seria um bom presidente. Como é mesmo aquele ditado? Ah, sim. Hoje não, Rodrigo. Hoje não.

Ovo ou a galinha?

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Com certeza, em algum momento da sua vida você já se deparou com esta pergunta. Encontrei esta imagem e, de repente, o problema estava solucionado e o mundo está cor de rosa agora. O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

Pergunta traiçoeira.

Pergunta capciosa.

Pergunta danadinha.

Não é um simples “ah, acho que foi a galinha”. Ou “menino, aposto todas as minhas fichas que foi ovo”. A pergunta vem em tom de brincadeira, como aquela “qual o sentido da vida?” ou “o que estamos fazendo aqui?”. E tentar responde-la, meu bem, é tomar partido. E parece aquelas imagens do facebook: se você for de Deus, compartilhe. Se for de 7 pele, apenas olhe. É tipo votar na Dilma ou no Aécio. Não existe um meio termo. Uma Marina Silva. É ser cidadão de bem ou gostar do Bolsonaro. É gostar de Harry Potter ou não ter lido.  É escolher um lado:

Darwin ou Deus?

Evolucionismo ou criacionismo?

– Não sei, não sei. Acho melhor deixar o ovo frito para amanhã e jantar a galinha cozida mesmo, mãe.